SANTOS DE VESTIR

As imagens de vestir ou "roca" – como são conhecidas – foram largamente utilizadas pela igreja Católica nos séculos XVII, XVIII e XIX. Elas tiveram um papel fundamental na organização das primeiras procissões tradicionais trazidas da Península Ibérica para as colônias.

Opulentas procissões organizadas pelas Ordens Religiosas e Irmandades reforçavam a autoridade e o prestígio do clero assim como o espírito religioso do povo.

Havendo competitividade entre as Irmandades, cada uma procurava causar maior ostentação na organização desses cortejos onde não faltavam luxo e grandes efeitos. Eles tinham como finalidade agregar grandes massas populares sem distinção de classe social.

As principais procissões contavam com enorme mobilização, riqueza e um grande número de imagens que, além de serem luxuosamente vestidas e ornadas com jóias valiosas, apresentavam uma parafernália de aparatos: perucas naturais, olhos de vidro, dentes de porcelana, osso ou marfim, lágrimas de cristais, gotas de sangue em pedra preciosa ou semipreciosa, coroas ou resplendores e articulações que possibilitavam a manipulação em diferentes posições.

As principais procissões eram a de Corpus Christi, a Procissão de Cinza ou da Penitência, a Procissão do Triunfo no Domingo de Ramos, a Procissão do Enterro do Senhor, a Procissão do Encontro, entre outras.

Essas procissões, cobertas de teatralidade como era o hábito europeu, assemelhavam-se às portuguesas. Pelo naturalismo na representação – além de todos os aparatos, algumas imagens apresentavam chagas pintadas em cores vivas e realistas – impressionavam a população quando, como verdadeiros atores, desfilavam pelas ruas em seus inúmeros andores.

ORIGEM

Os santos de vestir remontam à Idade Média - época em que leis severas eram contrárias às representações da Virgem, de Cristo e dos Santos por pessoas vivas. Criam-se então, imagens denominadas MARION (Maria, a Virgem) que deram origem ao tempo marionete usado ainda hoje e que tem também origens no espírito popular profano em narrativas de aventuras épicas, lendas cavalheirescas, contos de fadas, encenações folclóricas e provérbios populares.

No concílio de Trento (1545-1563) a Igreja Católica ratificou seus dogmas e construções doutrinárias – culto mariano, culto às almas do purgatório, culto aos coros angelicanos e santos em geral – levando a Igreja Católica a não aceitar alterações em sua doutrina, defendendo a intuição divina e o culto às imagens. Produz então santos em poses dramáticas de êxtase ou agonia. Essas imagens são pintadas em cores vivas e realistas com finalidade de emocionar – apesar do Concílio de Trento não ter autorizado pintar ou vestir as imagens de maneira profana. O barroco vai intensificar a imaginação popular e a escultura utilizada pela Igreja como meio de educação e formação espiritual torna-se cada vez mais próxima do homem através da linguagem popular dos fiéis.

TERMINOLOGIA

Classifica-se roca ou bastidor as imagens que, não possuindo talha de panejamento – dobras das vestes – ou mesmo que apresentem um esboço, precisam de roupas de tecido natural. O termo teria surgido devido ao instrumento usado para a fabricação do fio de onde se originavam os tecidos ou do próprio formato da roca que sustentada por três pés, se assemelha à estrutura da armação dos corpos desses santos.

A ESTRUTURA DO CORPO

Com algumas variações, Os Santos de Vestir podem ser classificados em quatro grandes grupos:

— O primeiro grupo, mais numeroso e tradicional, como imagens de roca ou bastidor, são os que apresentam em geral o tronco com escultura simplificada do tórax sustentado por gradeado de ripas no local da parte de baixo do corpo. A cabeça e as mãos trabalhadas e depois encarnadas. Na sua variação, podemos encontrar, além do gradeado de ripas, um pedaço de perna e nesse caso os pés, sapatos ou botas também são trabalhados. Os braços e antebraços são maciços e separados para colocação de peças de articulação que se encaixam em orifícios existentes nas extremidades. Chegam a ter duas ou três articulações em cada braço.
A cabeça, geralmente maciça, possui orifício no centro do crânio para colocação de acessórios (coroa ou resplendor). O rosto pode ser uma peça separada para colocação de olhos de vidro que podem ser colocados também por emendas na parte posterior da cabeça. Algumas imagens possuem orifício nos lóbulos da orelha ou aro de metal para colocação de brincos.

— O segundo grupo, também chamado de roca, possui armação rude como corpo e braços articulados. Nesse grupo, a cabeça, as mãos e os pés são trabalhados e encarnados. A cabeça segue o sistema anterior.

— O terceiro grupo é constituído por imagens cuja estrutura do corpo se assemelha a de um manequim, com articulações nos braços e às vezes nas pernas. Quanto à cabeça, segue o sistema anterior.

— O quarto e último grupo de imagens de vestir, apresentam esboço ou até mesmo o panejamento das vestes – às vezes bem elaborado – e com tratamento de policromia. Apesar disso, também são impróprios para exposição sem indumentária. Possui os braços articulados.

CABEÇAS, MÃOS E PÉS

Essas partes da composição das imagens de vestir são trabalhadas e depois encarnadas. A cabeça pode ser lisa para adaptação de perucas ou com entalhes de cabelos ondulados. Os olhos em pasta de louça pintados, de vidro comum ou pintados na própria peça podem apresentar lágrimas de cristal ou resina – as imagens mais recentes. Os lábios podem estar cerrados ou entreabertos e chegam a receber dentes de marfim, osso ou porcelana. Podem ser imberbes ou apresentarem barbas entalhada e ondulada. As mãos e os pés são trabalhados anatomicamente com dedos longos e delicados.

MUSEU ALEIJADINHO
18 de novembro a 14 de dezembro 1997